O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic pela terceira vez consecutiva em maio, levando-a para 10,25% ao ano. Para muitos analistas, o ciclo de afrouxamento monetário que se iniciou no segundo semestre de 2025 representa uma virada importante para a economia brasileira — mas os efeitos sobre o crédito empresarial são mais complexos do que parecem.

A lógica básica é simples: juros mais baixos reduzem o custo do dinheiro, o que deveria baratear o crédito para empresas e estimular o investimento. Na prática, porém, o que os dados mostram é que os spreads bancários — a diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada dos clientes — permanecem em patamares historicamente elevados.

O problema dos spreads

Segundo dados do Banco Central, o spread médio para pessoa jurídica no Brasil ficou em 14,3 pontos percentuais em abril de 2026 — praticamente o mesmo nível de dois anos atrás, quando a Selic estava em 13,75%. Isso significa que, na prática, a queda dos juros básicos não está se traduzindo em crédito mais barato para as empresas na mesma proporção.

O economista Gustavo Pinheiro, da consultoria Tendências, explica que os spreads elevados refletem uma combinação de fatores estruturais: inadimplência ainda acima do nível pré-pandemia, concentração bancária, e custos regulatórios que os bancos repassam aos clientes. "A Selic caindo é condição necessária, mas não suficiente para o crédito baratear. Você precisa atacar os outros componentes do spread."

"O Brasil tem um dos spreads bancários mais altos do mundo. Isso não vai mudar só porque o Copom cortou a Selic algumas vezes. É um problema estrutural que exige reformas mais profundas."
— Gustavo Pinheiro, economista, Consultoria Tendências

O que muda para as PMEs

Para as pequenas e médias empresas, o cenário é ainda mais nuançado. As PMEs dependem mais de linhas de crédito de curto prazo — capital de giro, antecipação de recebíveis — que são menos sensíveis à Selic do que os financiamentos de longo prazo.

Segundo a Confederação Nacional das Micro e Pequenas Empresas (Comicro), 38% das PMEs brasileiras relataram dificuldade de acesso a crédito no primeiro trimestre de 2026 — uma queda em relação aos 45% de um ano antes, mas ainda um número expressivo.

A analista Patrícia Moura, do Pulso Econômico, aponta que o mercado de capitais pode ser uma alternativa crescente para empresas de médio porte. "Estamos vendo um aumento no número de PMEs acessando o mercado de debêntures e CRIs. Isso é positivo, mas ainda é uma opção para um nicho restrito."

Perspectivas para o 2º semestre

A maioria dos analistas consultados pelo Pulso Econômico espera que a Selic chegue a 9,5% ao ano até o final de 2026. Se o cenário se confirmar, a pressão sobre os spreads deve aumentar — os bancos terão menos margem para manter os spreads elevados sem perder clientes para alternativas de mercado.

Mas há incertezas. A inflação de serviços, que permanece resiliente, pode levar o Copom a pausar o ciclo de cortes antes do previsto. E o cenário fiscal, com pressões sobre o teto de gastos, adiciona volatilidade ao quadro.

Por enquanto, o empresário brasileiro que espera crédito mais barato no curto prazo pode ter que ser paciente.