Depois de um 2024 marcado pela retração dos investimentos em startups — reflexo do aperto monetário global e da ressaca do boom de 2021-2022 — o ecossistema brasileiro de inovação começa a dar sinais de recuperação. Os dados do primeiro semestre de 2026, levantados pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), mostram um crescimento de 28% no volume de aportes em relação ao mesmo período do ano anterior.
O número ainda está longe dos picos históricos, mas a direção é positiva. E, desta vez, os investidores parecem estar sendo mais seletivos — o que, paradoxalmente, pode ser um sinal de maturidade do mercado.
Fintechs e healthtechs na liderança
As fintechs continuam sendo o setor mais atrativo para os investidores, com 34% do total de aportes no semestre. Mas o crescimento mais expressivo veio das healthtechs, que aumentaram sua participação de 15% para 22% em relação ao ano anterior.
"A pandemia acelerou a digitalização da saúde, e agora estamos vendo o segundo ciclo disso — empresas que sobreviveram ao período difícil e estão chegando à maturidade com modelos de negócio mais testados", explica Renata Leal, sócia da gestora Canary, uma das mais ativas no segmento.
"O mercado de 2026 é mais criterioso do que o de 2021. Isso é bom. Estamos investindo em empresas com fundamentos sólidos, não em narrativas."
— Renata Leal, sócia, Canary
O papel dos fundos regionais
Uma das novidades do ciclo atual é o crescimento dos fundos de venture capital com foco regional — especialmente no Nordeste e no Centro-Oeste. Iniciativas como o Fundo Nordeste Digital e o programa de aceleração do Sebrae têm contribuído para descentralizar o ecossistema, historicamente concentrado em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Startups de Recife, Fortaleza e Goiânia figuram entre as que receberam aportes relevantes no semestre — um sinal de que o ecossistema está se tornando genuinamente nacional.
Os desafios que persistem
Apesar do otimismo, os empreendedores ainda enfrentam obstáculos significativos. O custo do capital no Brasil permanece alto em comparação com mercados como o americano ou o europeu, o que limita a capacidade de escalar rapidamente. A burocracia tributária e trabalhista também é citada com frequência como um freio ao crescimento.
Para o segundo semestre, a expectativa é de continuidade da recuperação — mas com cautela. "O mercado está melhor, mas não está fácil. Quem achar que voltamos ao modo de 2021 vai se decepcionar", resume Renata Leal.